No meio do caminho
Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(1923-1939) - ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 61-62.
Canção do afogado
José Paulo Paes
Esta corda de ferro
me aperta a cabeça,
não deixa meus braços
se erguerem no ar.
E o mar me rodeia,
afoga meus olhos.
me aperta a cabeça,
não deixa meus braços
se erguerem no ar.
E o mar me rodeia,
afoga meus olhos.
Maninha me salve
não posso chorar!
não posso chorar!
Minha mão está presa
na corda de ferro
e os dedos não tocam
a rosa que desce,
que afunda sorrindo
nas águas do mar.
na corda de ferro
e os dedos não tocam
a rosa que desce,
que afunda sorrindo
nas águas do mar.
Maninha me salve
não posso nadar!
não posso nadar!
Algas flutuam
por entre os cabelos,
meus lábios de sangue
palpitam na sombra
e a voz esmagada
não pode fugir.
por entre os cabelos,
meus lábios de sangue
palpitam na sombra
e a voz esmagada
não pode fugir.
Maninha me salve
não posso falar!
não posso falar!
E a rosa liberta,
A inefável rosa,
Vai longe, vai longe.
Um gesto é inútil,
meu grito e meu pranto
inúteis também...
A inefável rosa,
Vai longe, vai longe.
Um gesto é inútil,
meu grito e meu pranto
inúteis também...
Maninha me salve
que eu vou naufragar!
que eu vou naufragar!
(1947) - PAES, José Paulo. Os melhores poemas. 3. ed. São Paulo: Global, 2000, p. 59-60.
Convite à viagem
Helena Kolody
Já se apresta o navio.
A marujada canta,
Marulha e arfa o mar,
O céu palpita.
A marujada canta,
Marulha e arfa o mar,
O céu palpita.
Deixa esse continente inóspito que habitas.
Iça teu sonho - vela branca - em altos mastros
E singra, solitário, rumo aos astros.
Iça teu sonho - vela branca - em altos mastros
E singra, solitário, rumo aos astros.
Nem tempo nem espaço a perturbar a viagem...
Navegas ao sabor do pensamento
Por águas infinitas.
Navegas ao sabor do pensamento
Por águas infinitas.
KOLODY, Helena. Viagem no espelho. Curitiba: Criar edições, 1988, p. 135.
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